…Era no tempo quando, no escritório, tão virulentamente eu caia em cima das corridas à igreja, dos padrecos, do murmurejar de rosário e das demais bugigangas.

Emprenhastes-te, mais ou menos inteligentemente, em proteger tudo isso; aparentemente sem suspeitares de que para mim, em última análise, não se tratava dessas coisas, mas propriamente de ponto de apoio contra minha consciência que eu estava procurando – dele eu precisava ainda – para justificar racionalmente a minha apostasia.

No fundo eu vivia revoltada contra Deus. Tu não percebias isso. Sempre me consideravas ainda católica. Como tal, queria eu também ser chamada; até mesmo pagava a contribuição para a igreja. Certa “ressalva” não me podia fazer mal, pensava eu.

Por mais certas que às vezes fossem tuas respostas, de mim ressaltavam, porque tu não devias ter razão. Em face dessas nossas relações entrecortadas a dor da nossa separação era pequena, quando meu casamento nos distanciou.

Antes do meu casamento, confessei-me e comunguei mais essa vez. Era uma formalidade. Meu homem pensava como eu. De resto, por que não haveríamos de satisfazê-la? Cumprimo-la como qualquer outra formalidade.

Vós o chamais “indigno”. Após aquela “indigna” comunhão eu tinha mais sossego de consciência. Era essa a última.

Nossa vida matrimonial decorria, em geral, em boa harmonia. Em quase todos os pontos tínhamos a mesma opinião. Também nisso: não nos queríamos impor o encargo de filhos. No fundo, meu marido desejava ter um – naturalmente não mais. Eu soube arrancar-lhe, finalmente, essa ideia. Eu gostava mais de vestidos e mobílias finas, de tertúlias de chá, de passeios de automóvel e de semelhantes divertimentos.

Era um ano de prazeres terrenos entre o casamento e minha repentina morte.

Cada domingo passeávamos de automóvel ou visitávamos parentes de meu esposo. (De minha mãe eu me envergonhava então). Esses nadavam bem como nós, na superfície da existência.

Interiormente, porém, nunca me sentia deveras feliz. Algo roía-me sempre na alma. Eu desejava que pela morte, a qual sem dúvida havia de demorar muito tempo ainda, tudo acabasse.

Mas é como em criança eu ouvira uma vez falar, em sermão, que deus recompensa já neste Mundo o bem que alguém pratica. Se não pode recompensá-lo no outro mundo, fá-lo na Terra.

Sem o esperar, recebi uma herança (da tia Lote). Meu marido teve a sorte de ver o seu salário consideravelmente aumentado. Assim pude instalar mimosamente a nossa casa nova.

* * *

Minha religião estava às últimas, como um vislumbre do ocaso no firmamento longínquo. Os bares e cafés da cidade e os restaurantes por onde passávamos nas viagens, não nos aproximaram de Deus.

Todos os que lá frequentavam, vivam como nós: de fora para dentro, não de dentro para fora.

Visitando uma célebre catedral, nas viagens de férias, procurávamos deleitar-nos com o valor artístico das obras primas. O sopro religioso que irradiavam, mormente as da Idade Média, eu sabia neutralizá-lo, escandalizando-me em qualquer circunstâncias da visita. Assim, a um irmão leigo que nos conduzia, eu criticava o estar um tanto sujo e desajeitado; criticava o comércio de piedosos monges que fabricavam e vendiam licor; criticava as eternas badaladas dos sinos chamando para igrejas, onde se trata apenas de dinheiro.

Catedral de Laon, França

Assim eu conseguia afastar de mim a graça, cada vez que me batia à porta.

Mormente deixava meu mau humor derramar-se livremente sobre tudo que tratava de antigas representações do Inferno em livros, cemitérios e outros lugares, onde se viam os demônios fritarem as almas em fogo vermelho ou amarelo, e seus sócios, de cauda comprida, trazerem-lhes mais e mais vítimas.

Clara, o Inferno pode ser mal desenhado, porém nunca ser exagerado.

Sobretudo escarnecia eu sempre do foto do Inferno. Lembras-te como numa conversa sobre isso eu te meti um fósforo aceso debaixo do nariz burlando: “É assim que cheira!”

Tu apagaste tão logo a chama. Aqui ninguém a extingue. Digo-te mais: o fogo de que fala a Bíblia, não significa tormento de consciência. Fogo significa fogo. Cumpre entendê-lo em sentido real, quando Aquele declarou: “Afastai-vos de mim, vós, malditos, ide para o fogo eterno”. Literalmente!

Como pode o espírito ser tocado pelo fogo material? Perguntas.

fogo

Como então pode, na Terra, tua alma sofrer, segurando teu dedo na chama?

Tua alma também não se queima, mas que dor tem de aturar o homem todo!

Semelhantemente estamos nós aqui presos ao fogo em nosso ser em nossas faculdades. Nossa alma fica privada do seu vôo natural; não podemos pensar nem querer o que queremos.[S. Th. Suppl. q. 70, a. 3, r.: “O fogo do Inferno atormenta o espírito pelo que o impede de executar o que quer; não pode atuar onde quer e quanto quer.”]

Não procures esclarecer o mistério contrário às leis da natureza material: o fogo do

Inferno queima sem consumir.

O nosso maior tormento consiste em que sabemos exatamente que nunca veremos Deus.

Quanto pode torturar o que na terra nos era indiferente! Enquanto a faca está em cima da mesa, deixa-te fria. Vês-lhe o fio, porém não o sentes. Mas entra a faca na carne e gritarás de dor.

Agora sentimos a perda de Deus; antes só a vimos.[“A separação de Deus é um tormento tão grande como Deus” (Frase atribuída a S. Agostinho. Cf. Houdry, Biblioteca concionatorum – Veneza, 1786, vol. 2, sob Infernus, § 4, p. 427)]

Todas as almas não sofrem igualmente. Quanto mais frívolo, maldoso e decidido alguém foi no pecar, tanto mais lhe pesa a perda de Deus, e tanto mais torturado se sente pela criatura abusada.

Os católicos condenados sofrem mais do que os de outra crença, porque receberam e desaproveitaram, em geral, mais luzes e mais graças.

Quem sabia mais, sofre mais do que aquele que menos conhecimentos tinha.

Quem pecou por maldade sofre mais do que aquele que caiu por fraqueza.

Mas nenhum sofre mais do que mereceu. Oxalá isso não fosse verdade, para que eu tivesse motivo para odiar!

Tu me disseste um dia: ninguém cai no Inferno sem que o saiba. Foi isso revelado a uma santa. Ria eu disso, no entanto me entrincheirava atrás desta reflexão: nesse caso me ficaria suficiente tempo para me converter – assim eu pensava no íntimo.

O enunciado calha. Antes do meu fim repentino, de certo não conhecia o Inferno tal qual é. Nenhum ente humano o conhece. Mas eu estava exatamente inteirada disso: Se tu morreres, entrarás na eternidade como revoltada contra Deus. Suportarás as consequência.

Conforme declarei já, não voltei atrás, mas perseverei na mesma direção, arrastada pelo costume, com que os homens agem tanto mais calculada e regularmente, quanto mais velhos ficam.

* * *

Minha morte ocorreu do seguinte modo:

Há uma semana – falo de acordo com a vossa contagem, porque calculada pelas dores, eu poderia já estar ardendo no Inferno havia dez anos – faz pois uma semana que meu marido e eu fizemos, num domingo, uma excursão, que foi a última para mim.

Radiante despontara o dia. Eu sentia-me bem, como raras vezes. Perpassou-me, porém, um sinistro pressentimento..

Inesperadamente, na viagem de volta, meu marido que vinha guiando o carro, e eu ficamos ofuscados pela luz de um automóvel que vinha em sentido contrário e com grande velocidade. Meu marido perdeu a direção.

Jesus! Estremeci. Não como oração, mas como grito. Sentia uma dor esmagadora por compressão – uma bagatela em comparação com o tormento atual. Perdi então os sentidos.

Estranho! Naquele manhã mesma, nascera-me inexplicavelmente a ideia: poderias, enfim, mais uma vez ir à missa. Soava-me como súplica. Claro e decidido cortou meu “Não” o fio da ideia. Com isso devo acabar definitivamente. Tomo sobre mim todas as consequências. Agora as suporto.

* * *

O que aconteceu após a minha morte, tu conheces. A sorte de meu marido, de minha mãe, do meu cadáver e enterro, tudo te é conhecido até nos pormenores, como sei por uma intuição natural que todos nós temos.

Do mais que acontece no Mundo, só temos um conhecimento confuso. Mas o que nos tocava de perto conhecemos. Assim conheço também teu paradeiro.[“As almas de falecidos não têm seguro conhecimento de pormenores, porém apenas um enuviado conhecimento geral da natureza material”. (S. Th. Suppl. q. 98, a. 3).]

* * *

Acordei das trevas no momento da minha morte. Vi-me de repente envolvida de luz ofuscante. Era no mesmo lugar onde estava o meu cadáver. Aconteceu como em teatro, quando de repente apagam as luzes, a cortina é ruidosamente removida e aparece a cena tragicamente iluminada: a cena de minha vida.

Como num espelho, assim eu vi minha alma. Vi as graças pisadas aos pés, desde a juventude até o último “Não” dado a Deus.

Apossou-se de mim a impressão como que de assassino levado ao tribunal à frente da sua vítima inanimada. – Arrepender-me? Nunca! [S. Th. Suppl. q. 98, a. 2, r.: “Os maus não se arrependem propriamente dos pecados, por lhes serem afeitos maliciosamente. Arrependem-se, porém enquanto são castigados pelas penas dos pecados”.] – Envergonhar-me? Jamais!

Entretanto nem me era possível permanecer na vista de Deus, negado e reprovado por mim. Restava-me uma só coisa: a fuga.

Assim como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim minha alma se atirou longe desse aspecto horrível.

Esse era o Juízo particular.

O invisível juiz falou: “Afasta-te!” Logo caiu minha alma, como uma sombra sulfúrica, no lugar do tormento eterno. “É certo que o Inferno é um local determinado. Mas onde esse local fica situado, ninguém o sabe.”

A eternidade das penas do Inferno é um dogma: seguramente o mais terrível de todos. Tem suas raízes na S. Escritura. Cf. Mt. 25, 41 e 46; 2 Thess. 1, 9; Jud. 13; Apoc. 14, 11 e 20, 10; todos eles são textos irrefutáveis, em que “eterno” não se deixa trocar e interpretar por “longo”.

Se não fora conveniente ilustrar esse dogma num caso particular, nem o próprio Nosso Senhor teria pedido fazê-lo na parábola do rico folgazão e do pobre Lázaro. Lá fez o mesmo que aqui vem feito: desenhou o Inferno e como se pode cair nele. Não o fez por prazer sensacional, porém levado pela mesma intenção que ocasionou esta publicação.

A finalidade deste folheto encontra sua expressão no seguinte conselho: “Desçamos ao Inferno ainda vivos, para que moribundos nele não caiamos”. Este conselho dirigido a cada um não é senão a paráfrase do salmo 54: “Descendant in infernum viventes, videlicet, ne descendant morientes”, a qual se encontra numa obra (erradamente) atribuída a S. bernardo (Patr. Lat. Migne, vol. 184, Col. 314 b).[“É certo que o Inferno é um local determinado. Mas onde esse local fica situado, ninguém o sabe.”

A eternidade das penas do Inferno é um dogma: seguramente o mais terrível de todos. Tem suas raízes na S. Escritura. Cf. Mt. 25, 41 e 46; 2 Thess. 1, 9; Jud. 13; Apoc. 14, 11 e 20, 10; todos eles são textos irrefutáveis, em que “eterno” não se deixa trocar e interpretar por “longo”.

Se não fora conveniente ilustrar esse dogma num caso particular, nem o próprio Nosso Senhor teria pedido fazê-lo na parábola do rico folgazão e do pobre Lázaro. Lá fez o mesmo que aqui vem feito: desenhou o Inferno e como se pode cair nele. Não o fez por prazer sensacional, porém levado pela mesma intenção que ocasionou esta publicação. A finalidade deste folheto encontra sua expressão no seguinte conselho: “Desçamos ao Inferno ainda vivos, para que moribundos nele não caiamos”. Este conselho dirigido a cada um não é senão a paráfrase do salmo 54: “Descendant in infernum viventes, videlicet, ne descendant morientes”, a qual se encontra numa obra (erradamente) atribuída a S. bernardo (Patr. Lat. Migne, vol. 184, Col. 314 b).]

* * *

Últimas informações de Clara

“Assim finalizou a carta de Âni sobre o Inferno. As últimas palavras eram quase ilegíveis, tão tortas estavam as letras. Quando eu acabara de ler a última palavra, a carta toda virou cinza.

Que é que lá ouço? Por entre os duros acentos das linhas que eu imaginava ter lido ressoou doce som de sino. Acordei de vez. Achei-me ainda deitada no meu quarto. A luz matinal da aurora penetrava nele. Da igreja paroquial vinham as badaladas das ave-marias.

Pois tudo era apenas um sonho?

Nunca eu sentira na Saudação Angélica, tanto consolo como após esse sonho. Pausadamente fui rezando as três ave-marias. Tornou-se-me então claro, claríssimo: ela cumpre segurar-te, à bendita Mãe do Senhor, venerar a Maria filialmente, se não quisesse ter a mesma sorte que te contou – ainda que em sonho – uma alma que jamais verá Deus.

Espantada e tremendo ainda pela visão noturna levantei-me, vesti-me depressa e fugi para a capela da casa.

O coração palpitava-me violenta e descompassadamente. Os hóspedes, ajoelhados mais perto de mim, olhavam-me preocupados. Talvez pensassem que, por haver eu corrido escada abaixo, estivesse tão excitada e vermelha.

Uma bondosa dama de Budapeste, grande sofredora, franzina como uma criança, míope, todavia fervorosa no serviço de Deus e de longo alcance espiritual, disse-me à tarde no jardim: “Senhorita, Nosso Senhor não quer ser servido no expresso”.

Mas ela percebia então que outra coisa me havia excitado e ainda me preocupava. Ajuntou bondosamente: “Nada te deve angustiar – conheces o aviso de S. Teresa – nada te deve alarmar. Tudo passa. Quem possui Deus, nada lhe falta. Só Deus basta.”

Quando sussurrava isso mesmo, sem qualquer tom de mestra, parecia-me ler na minha alma.

“Deus só basta”. Sim, Ele há de me bastar, neste e no outro mundo. Quero ali possuí-Lo um dia, por mais sacrifícios que aqui eu tenha ainda de fazer para vencer. Não quero cair no Inferno.”

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A CARTA DO ALÉM – final
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