Marta K. e tu me fizestes ingressar na associação das moças. Nunca te escondi que achava as instruções das duas diretoras, duas senhoras X., assaz vigaristas. Achava os jogos bastante divertidos. Conforme sabes, cheguei, em breve, a sustentar nele papel preponderante. Isso era o que me lisonjeava. Também as excursões me agradavam. Deixei-me até levar algumas vezes a confessar-me e comungar. Propriamente não tinha nada para confessar. Pensamentos e sentimentos comigo não entravam em conta. Para coisas piores eu não estava madura ainda.

Admoestaste-me um dia: “Âni, se não rezares mais, perder-te-ás”. Eu rezava realmente muito pouco; e também só contrariada, de má vontade.

Tinhas tu, sem dúvida, razão. Todos os que no Inferno ardem, não rezaram, ou não rezaram bastante. A oração é o primeiro passo para Deus. Sempre decisivo. Mormente a oração para aquela que é a mãe do Cristo, cujo nome não nos é lícito pronunciar. A devoção a Ela arranca ao demônio inúmeras almas, que os pecados lhe teriam infalivelmente atirado às mãos.

Sacerdote em oração
Sacerdote em oração

Furiosa continuo – por ser forçada: rezar é o mais fácil que se pode fazer na Terra. Justamente a essa facilidade Deus ligou a salvação.

A quem reza coma assiduidade, Deus dá, paulatinamente, tanta luz e fortalece-o tanto que o mais afogado bode de pecador se pode definitivamente levantar pela oração, ainda que esteja submerso na lama até ao pescoço.

Nos últimos anos da vida eu deveras não rezava mais e assim me privava das graças, sem as quais ninguém se pode salvar.

Aqui não recebemos mais graça alguma. Mesmo que a recebêssemos, com escárnio a rejeitaríamos. Todas as vacilações da existência terrestre acabaram no além.

* * *

Na vida terrena pode o homem passar do estado de pecado para o estado de graça. Da graça pode cair no pecado. Frequentes vezes caí por fraqueza; raramente por maldade. Com a morte, terminou essa inconstância do sim e do não, caindo e levantando-se. Pela morte, cada um entra no estado final, fixo e inalterável.

À medida que avança a idade, tornam-se menores os saltos. É verdade que, até à morte, a gente se pode converter a Deus ou virar-Lhe as costas. No morrer se decide o homem, entretanto, com as últimas tremuras da vontade, maquinalmente, tal como se acostumara na vida.

Bom ou mau hábito tornou-se uma segunda natureza. Esta o arrasta no derradeiro momento. Assim também arrastou à mim. Anos inteiros eu vivera afastada de Deus. Consequentemente, decidi-me no último chamamento da graça, contra Deus. Não que o haver pecado muitas vezes me fosse uma fatalidade, mas porque eu não me queria mais levantar.

Repetidas vezes me admoestaste a assistir à pregação e a ler livros devotos. Eu escusava-me regularmente com a falta de tempo. Havia eu de aumentar ainda mais a minha incerteza íntima?

Cumpre-me aliás afirmar: Quando cheguei a esse ponto crítico, pouco antes da minha saída da associação das moças, ter-me-ia sido muito difícil enveredar por outro caminho. Sentia-me insegura e infeliz. Diante da minha conversão, levantou-se um paredão. Deves tê-lo desapercebido. Tu o tinhas imaginado tão fácil, quando uma vez me disseste: “Faça, pois, uma boa confissão, Âni, e tudo ficará bem”.

Eu suspeitava que assim fosse. Mas o mundo, o demônio e a carne já me seguravam nas suas garras. CONTINUA NUM PRÓXIMO POST.

***Imprimatur do original alemão; Brief aus dem Jenseits: Treves, 9/11/1953. N. 4/53. Aprov. Ecles. Deste opúsculo: Taubaté – est. De S. Paulo – 2/11/1955.

Salvar

A CARTA DO ALÉM – 4
Classificado como:                                

Uma ideia sobre “A CARTA DO ALÉM – 4

  • 23 setembro, 2015 em 13:14
    Permalink

    Es la inmensa tragedia de demorar la confesión, cuando por un acto de confianza unida a la humildad del sacramento se puede recomponer todo lo perdido por el pecado… Historia impresionante cuyo conocimiento hace un bien enorme a las almas.

    Resposta

Deixe o seu comentário.

%d blogueiros gostam disto: