História oriental

Aniversário do Pe. José Roberto

Na semana que passou celebramos o aniversário do Pe. José Roberto. Houve jantar de festa, assado e torta de chocolate, com espumante. Oferecemos os presentes no final. E ele foi quem nos presenteou com uma história que quero contar aqui, aos meus amigos.

Ibrahim e Yusuf

O anoitecer no deserto do Saara é deslumbrante. O causticante sol, de repente, desaparece atrás das dunas, e é preciso descer dos camelos, acender uma fogueira (o frio é grande à noite) e se preparar para o sono. Ibrahim e Yusuf, depois de comer algumas támaras e figos secos, conversavam perto do fogo. Da diversidade de opiniões passaram a uma discussão… e farto de argumentos, Yusuf meteu uma bofetada no rosto de Ibrahim!

Eram amigos de toda a vida, tinham jogado juntos desde crianças, crescido e trabalhado. Agora levavam a caravana carregada de tecidos preciosos e… Ibrahim ficou atônito. Seus  olhos profundamente negros fitaram as pupilas enrubescidas pela cólera de Yusuf. Sentou-se, virou o rosto, e escreveu na areia: “Neste lugar, meu amigo Yusuf deu-me uma bofetada”. Depois retiraram-se a descansar.

No dia seguinte, o sol estava mais quente do que o habitual. Em silêncio os camelos desfilavam prolongando suas sombras quase até o infinito, quando o sol descia. Mas antes de anoitecer chegaram a um oásis de frescura, onde as palmeiras bordejavam um lago nascido de uma fonte que explodia cantarina e alegre de uma rocha grisalha.

À sombra das palmeiras, junto ao pequeno lago, Ibrahim e Yusuf descansaram conversando como amigos que eram. Ainda o sol brilhava no horizonte, e Ibrahim quis mergulhar um pouco nas águas para se livrar do calor. Mas o lago era traiçoeiro, e escondia um redemoinho que puxava para um fundo desconhecido. Ibrahim gritou, e Yusuf, experiente nadador, já fora até pescador de pérolas, lançou-se com roupas, turbante e pontudas babuchas. O redemoinho era forte! Mas Yusuf foi mais forte, e tirou Ibrahim do perigo.

Na areia ainda quente do sol quase oculto, Ibrahim recuperou o fôlego, sob a mirada preocupada de Yusuf. Depois fitaram-se em silêncio: conheciam-se demais para precisar falar. Ibrahim levantou-se, foi até a rocha da qual surgia a fonte, e com um canivete pontudo escreveu: “Neste lugar, meu amigo Yusuf salvou-me das águas”.

Depois, retiraram-se a descansar.

De manhã, enquanto carregavam os camelos, um dos servos aproximou-se de Ibrahim: “Diz-me o que queres”, perguntou-lhe. “Senhor, respondeu o servo, quando Yusuf deu-te uma bofetada injusta, escrevestes na areia, quando salvou-te do perigo escreveste na pedra. Podias me explicar porque?”

“Filho, respondeu Ibrahim enquanto alisava a barba, quem tem verdadeira amizade perdoa tudo de seu amigo, até as injurias esquece; mas os favores, lembra como cristais luminosos a brilharem na noite”.

Ibrahim e Yusuf foram amigos até fecharem os olhos à vida, e repousar de seus peregrinares pelo deserto.

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